by Axé Brasil on 31 Dec 2004, 08:19
Bola Virtual: Se o Luxa reeguer o Real, o mundo estará a seus pés
Alberto Helena Jr.
O estrondo da bomba me faz saltar da rede, calçar as velhas sandálias e me arrastar para a frente do computador, quebrando assim mais uma a promessa de Natal – não falar de futebol até dia 4. Mas, como esperar até a volta de minhas curtas férias para comentar a súbita ida do técnico Luxemburgo para o Real Madrid?
Logo quando me preparava para aplaudir o gesto inicial do treiandor, que dias atrás havia preferido seguir na Vila, desmentindo todos os rumores que o davam de volta ao Parque São Jorge.
Porém, convenhamos, não há como recusar uma oferta dessas, um verdadeiro presente de fim-de-ano para qualquer treinador do mundo. Não apenas porque o Real é um dos mais ricos e poderosos clubes do mundo, onde os mais modestos gestos de Luxemburgo ecoarão pelos quatro cantos do planeta.
Mas, sobretudo, porque o Real tem lá a mais seleta reunião de craques consagrados, mas até agora não conseguiu ser um time, muito menos aquele time dos sonhos que embalou os devaneios dos madrilenhos e que acabaram se transformando em pesadelo a partir do final da temporada passada.
Desde a demissão de Vicente del Bosque, o Real, apesar de todos os luminosos reforços, não ganha nada, nem um prêmio de consolação, como, por exemplo, a Copa do Rei. E, pior: joga, no máximo, para o gasto.
Trocou de técnico três vezes neste ano, e continua sendo um time de brilhos esporádicos e breves.
No Campeonato Espanhol, está espiando seu feroz rival, o Barça de Ronaldinho Gaúcho, de binóculo. E, na Liga dos Campeões, que só agora entra na fase dos grandes embates, segue em frente, mas aos soluços.
Ora, a verdade é que nunca um técnico brasileiro, em toda a história gloriosa de nosso futebol, jamais chegou a dirigir um time de ponta da Europa. E aqui não conta Portugal, seja seleção, habilmente dirigida agora por Felipão como o havia sido por Oto Glória em 66, técnico também do Benfica, bicampeão europeu naquela época, Portugal é o Brasil d´além mar.
Refiro-me, claro, a um Real, a um Barça, um Milan, uma Juve, um Manchester United, um Bayern Munique, um desses times de tradição e força consagrados. Luxemburgo é, pois, um marco na história do nosso futebol.
Mas, por que cargas d´água o Real resolveu chamar Luxemburgo, já que é notório o desconhecimento e o desprezo dos europeus por nossos treinadores? Não tenho dúvidas de que o êxito diante da seleção portuguesa de Felipão pesou muito. Tanto, que, dizem, ele foi o primeiro a ser sondado pelo Real.
Contudo, desconfio que o peso maior foi o aval de Arrigo Sacchi, recém-nomeado diretor de futebol do clube merengue. Sacchi, que, depois de áureo período à frente do Milan dos holandeses geniais – Reijkaard, Van Basteen e Gullit -, foi um fracasso na Azzurra e nas duas outras tentativas de voltar ao banco de clubes.
Mas, trata-se de fino observador do futebol, que sempre flertou com o futebol artístico e ofensivo, meio do jeitão tradicional destas nossas paragens. Algo muito próximo da visão que Luxemburgo tem do futebol.
Além do mais, há o cartel glorioso de Luxemburgo: entre outras coisas, campeão da Copa América pela seleção e cinco vezes campeão brasileiro por quatro clubes diferentes. A questão, agora, é se sua ida dará certo, num time que vai mal no Campeonato Espanhol e com esperanças na Liga dos Campeões.
Um sinal positivo está no fato de o Real aceitar suas condições, dentre as quais, levar seus dois fiéis preparadores-físicos: Mello e Teixeira. Mesmo porque o maior drama desse time é o preparo físico: além de não ser hábito na Europa um empenho maior nesse quesito, o Real é uma equipe formada por um elevado número de jogadores que beiram ou já ultrapassaram a fatídica marca dos 30 anos de idade.
Bem, pelo andar da carruagem, dificilmente Luxemburgo conseguirá o milagre de virar esse jogo quase perdido do Campeonato Espanhol, área onde ele tem sido mestre – a disputa de pontos corridos. E, na Liga, mata-mata, que não tem sido a praia de Luxa, a bucha está logo ali na esquina.
Por tudo isso, se o treinador brasileiro conseguir reerguer esse Real, então, o mundo estará a seus pés. Caso contrário, será mais um na lista das malfadadas experiências do Real dos últimos tempos.